A necessidade e a urgência de ações efetivas de combate às causas do aquecimento global são unanimidade entre autoridades governamentais, lideranças empresariais e ambientalistas. O mesmo não se pode dizer quando se trata de definir as medidas a ser adotadas e a responsabilidade de cada um. Essa, ao menos, foi a impressão que ficou para os participantes do debate Diálogos Capitais – Na rota de Copenhague, realizado por CartaCapital e o site de notícias Envolverde, na terça-feira 13, em São Paulo.

O evento, comemorativo do lançamento do suplemento trimestral CartaVerde, encartado em CartaCapital (o primeiro número saiu na edição 567, de 14 de outubro), reuniu grandes especialistas em meio ambiente e sustentabilidade. O embaixador brasileiro para questões do clima, Sérgio Serra, fez a palestra de abertura da mesa de debates da manhã. À tarde, foi a vez do físico José Goldemberg, ex-reitor da USP e ex-secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, abrir os trabalhos.

Segundo o embaixador Serra, apesar de restarem menos de dois meses para a COP-15, a 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU, as negociações para a renovação dos acordos do Protocolo de Kyoto estão longe de chegar a um consenso. Não se sabe ainda como resolver, por exemplo, o problema das metas de redução não atingidas pelos países membros da Convenção, e que haviam sido acordadas no Japão, com prazo até 2012. Uma das possibilidades é aproveitar a recessão que atingiu os ex-integrantes da extinta União Soviética, que deixaram de emitir toneladas de carbono em decorrência da crise econômica vivida após a desintegração do bloco. O carbono não emitido poderia ser comprado pelos países que excederam suas metas.

Outra discussão sem consenso é a busca de uma comparabilidade dos compromissos dos EUA com outros paí-ses desenvolvidos. “Há uma resistência intrínseca dos norte-americanos a qualquer fiscalização. Eles veem isso como uma ingerência em assuntos internos, o que torna a questão da comparabilidade complicada e ainda indefinida”, afirma o embaixador. A grande pergunta nos bastidores das negociações, segundo Serra, é se os Estados Unidos estarão prontos para negociar em Copenhague.

Em sua opinião, essa é uma hipótese muito remota. Os norte-americanos não querem debater metas concretas sem a aprovação no Congresso e o projeto de lei sobre clima e energia, aprovado na câmara dos representantes em julho, tem poucas chances de ser votado no Senado até o início de dezembro. Dessa forma, a lista de dificuldades ainda pendentes pode levar a Conferência de Copenhague a produzir um documento de parâmetros, com espaços em branco, a ser preenchidos em algum momento do primeiro semestre do ano que vem, numa Copenhague 2.

Internamente, o Brasil sinaliza a pretensão de apresentar uma proposta avançada, com base na sua matriz energética e nas metas de redução de desmatamento. Para o embaixador, “há uma certa tranquilidade, porque a maior parte de nossas emissões são decorrentes do desmatamento”. Em sua opinião “é muito possível que o grosso de nossos compromissos em Copenhague seja na redução do desmatamento, dentro do programa de Redd (Reduções de Emissões por Desmatamento e Degradação), já que o desmatamento representa 70% das emissões brasileiras”, explica.

O presidente do Instituto Ethos, Ricardo Young, que moderou a mesa de debates “Um clima para o mundo”, deixou claro que o setor empresarial está preocupado com as mudanças que devem ocorrer no ambiente de negócios. Destacou que, além das metas e acordos, a conferência de Copenhague deve representar um avanço em direção a um pacto de governança global, dentro de um novo padrão civilizatório que envolve o papel dos Estados, da sociedade civil, da legislação, dos direitos de ir e vir.

A preocupação das empresas, segundo ele, está em saber quais serão as novas bases para o desenvolvimento de suas atividades, os impactos das mudanças, os novos marcos regulatórios, tais como as condições de formação de capital intelectual, os modelos de financiamento, de inovação e de desenvolvimento de tecnologias. “É preciso que os governos tomem decisões transparentes, adequadas, que permitam o planejamento dos negócios”, afirmou Young.

Essas expectativas foram confirmadas pelo diretor de Meio Ambiente da Odebrecht, Sergio França Leão, que relatou as iniciativas da empresa para reduzir os impactos de suas atividades e disse que espera “uma posição vigorosa do Brasil em Copenhague”, mas também que as decisões tomadas na conferência “facilitem o trabalho das empresas como viabilizadoras de uma economia de baixo carbono, simplificando os mecanismos de regulação, tornando-os ágeis e eficientes, para que elas tenham um papel central nessa economia”.

O desafio de mostrar que florestas em pé têm valor ficou com o diretor da área de meio ambiente do BNDES, Sérgio Weguelin, e com Virgílio Viana, da Fundação Amazonas Sustentável. Os dois trabalham em processos diferentes de Redd e enxergam no modelo uma alternativa importante para a captação de recursos no mercado internacional e para o desenvolvimento local. O BNDES administra o Fundo Amazônia, que já captou 100 milhões de dólares para aplicação em projetos a fundo perdido que evitem desmatamento. Viana dirige uma fundação que incentiva a produção local em unidades de conservação no Amazonas. Sua aposta para Copenhague é que ao menos 10% das reduções de emissões dos países industrializados possam ser compensadas por meio de investimentos na preservação de florestas tropicais.

No período da tarde, os debates concentraram-se nas questões relativas ao desenvolvimento da chamada “economia da biomassa”, tendo como foco a palestra de José Goldemberg. Considerado uma das maiores autoridades brasileiras na área de energia, o ex-reitor da USP projetou um futuro cada vez mais difícil para os combustíveis fósseis. “O desenvolvimento com base no petróleo é um risco”, disse ele, enfatizando as vantagens do etanol, inclusive sobre outros tipos de energias de biomassa.

Goldemberg destacou que o etanol brasileiro, baseado na cana-de-açúcar, apresenta uma série de benefícios, entre eles o balanço energético positivo, o aproveitamento integral dos resíduos e o baixo custo de produção. Rebateu as acusações de que produzido em larga escala o etanol poderia comprometer áreas destinadas ao plantio de alimentos e de que provoque desmatamento. Definiu o álcool combustível como “energia solar liquefeita”.

Moderado pelo jornalista Dal Marcondes, diretor da Envolverde, os debates que se seguiram à palestra de Goldemberg contaram com a presença da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, que falou sobre o papel da floresta amazônica em uma economia de biomassa. A governadora destacou o potencial da Amazônia no desenvolvimento de uma economia baseada em biomassa por meio de programas de reflorestamento, manejo florestal, exploração de produtos como óleo de dendê e de culturas perenes. Segundo ela, o Pará assumiu o desafio de reduzir em 80% o desmatamento até 2020 e implanta uma série de políticas públicas para a exploração sustentável desse potencial.

Sobre as iniciativas do setor privado na geração de recursos renováveis, Linda Murasawa, superintendente de desenvolvimento sustentável do Grupo Santander Brasil, relatou uma experiência bem-sucedida no financiamento de programa de plantio de eucalipto do Grupo Votorantim, no Rio Grande do Sul, baseado em pequenas propriedades. O banco, segundo ela, construiu uma nova visão de crédito para conseguir viabilizar o projeto. “Financiamos com as carências necessárias para o crescimento das árvores”, disse. “Não adianta querer que o agricultor pague suas contas antes de realizar a colheita, que neste caso são de sete a catorze anos”, explicou.

João Norberto Noschang Neto, gerente de Gestão Tecnológica da Petrobras Biocombustível, que também compôs a mesa de debates, falou sobre os projetos da estatal brasileira, destacando que a empresa tem como objetivo estar entre as cinco maiores do mundo na produção de biocombustíveis. Bombardeado com perguntas sobre os planos do governo de exploração das reservas do pré-sal, o representante da Petrobras disse que “assim como a idade da pedra não acabou por falta de pedras”, a era do petróleo sofrerá grandes transformações antes que suas reservas se esgotem, com o crescimento de aplicações mais nobres do que a simples queima para a geração de energia.

Para o economista Ladislau Dowbor, do núcleo de Economia Mundial Contemporânea da PUC de São Paulo, outro debatedor, o conceito-chave para o desenvolvimento de uma nova economia, de baixo carbono, está na utilização do grande contingente de mão de obra desempregada ou subutilizada, disponível em todo o mundo. “Com tanta coisa para fazer, saneamento, reflorestamento, é preciso disponibilizar a tecnologia existente para ocupar essa população”, observou Dowbor.

Fonte: Celso Dobes Bacarji, da Envolverde – especial para a Carta Capital